Friday, September 28, 2007
Wednesday, August 22, 2007
I went to Mexico and all I got was a lousy hurricane
Thursday, August 16, 2007
Monday, July 16, 2007
And now for something completely different... and futile
Lisboetas
As 24 folhas e uma hora de questionário percorridas não mostram a razão da sua postura envergonhada e, até mesmo, subserviente; as codificações e posteriores análises estatísticas não conseguem conter as lágrimas que lhe resvalam teimosas pelo rosto. A sua vida é demasiado dolorosa para caber no mundo mesquinho da ciência que apenas recolhe dos seus espécimes o que supostamente é mensurável. Sem lhe poder dar nada em troca, sem sequer poder resolver os seus problemas, permitiu-me arrombar-lhe o baú poeirento das memórias que muito provavelmente simplesmente queria deixar completamente encerrado.
50 e muitos anos, analfabeta. Nunca andou na escola porque nasceu numa comunidade cigana onde a educação pouca importância tem, mas onde a virgindade é um valor inviolável. É com vergonha que assume que a perdeu precocemente e com raiva que explica ser essa a razão pela qual não tem família e possivelmente nunca teve alegrias na vida. A sova que o pai lhe poderia ter dado foi-lhe sendo administrada diariamente pela vida. Excomungada da sua comunidade, como que expulsa do paraíso por ter cometido o erro de provar a maçã, viu-se forçada a roer-lhe o caroço para sobreviver. Prostituta durante quase 4 décadas, não conseguiu evitar três filhas a quem queria poupar o sofrimento... assim como não consegue evitar a vergonha que uma delas sente da seropositividade da mãe. De todas as chicotadas que confessa não suportar, é ver a filha favorita deixar-se engravidar e espancar por parasitas violentos sem ouvir os conselhos de quem já levou muito também. Não tive coragem de lhe perguntar a questão que encerra o questionário... perguntar a alguém que viveu nas ruas muitos anos se acha que "nunca, raramente, ocasionalmente, muitas vezes, sempre" esteve em pobreza seria, no minimo, desumano.
O questionário terminou, extraí dela os pedaços mensuráveis que a partir de agora serão digeridos pelos testes estatísticos em conjunto com outros tantos pedaços que não mostram a totalidade destas habitantes de Lisboa cuja existência ignoramos completamente. Só lhe dei em troca o reavivar de memórias duras e dolorosas... mas quando na despedida achei que, no minimo, lhe deveria retribuir com uns simples beijos na cara, ao ver o primeiro sorriso sincero e aberto iluminar-lhe a face percebi que ao menos durante uma hora lhe tinha dado algo precioso que nem a vida nem ninguém lhe certamente dava todos os dias: atenção.
